giovedì 10 settembre 2009

O Homem do Pau-Brasil (Joaquim Pedro de Andrade, 1981)


Doze anos após Macunaíma (1969), baseado na obra homônima de Mário de Andrade, Joaquim Pedro de Andrade busca na literatura do outro Andrade - o polêmico escritor Oswald (1890-1954) - a inspiração para O Homem do Pau-Brasil (1981), seu derradeiro longa-metragem.

O resultado é uma comédia inteligente e criativa que faz jus à sua fonte inspiradora. Joaquim Pedro realizou um filme sobre a vida de Oswald que passa ao largo das cinebiografias convencionais. Porém, nas próprias palavras do diretor, o filme “foi feito para quem não sabe de Oswald de Andrade. Para gostar do filme basta ser esperto, irreverente e ter senso de humor – qualidades brasileiras”.

Na película estão presentes as grandes figuras que conviveram com o escritor, como Tarsila do Amaral, Mário de Andrade, Menotti del Picchia, Anita Malfatti, Paulo Prado, Blaise Cendrars, Patrícia Galvão (Pagu), Heitor Villa-Lobos, dentre outros. Porém, nem todos permanecem com os seus respectivos nomes ou identificações físicas, o que neste sentido, exige do espectador referências prévias destas proeminentes figuras que fizeram parte daquela geração de modernistas. Tarsila, por exemplo, é retratada como Branca Clara, revivida pela presença luminosa de Dina Sfat, Pagu é Rosa Lituana (Dora Pellegrino) e Isadora Duncan é Diva (Juliana carneiro da Cunha); uma improvável Susana de Moraes aparece na pele de Villa-Lobos, assim como Dona Olívia, a anfitriã dos modernistas em São Paulo, tornou-se Dona Azeitona, defendida pelo talento e simpatia de Etty Frazer. Porém, pode-se dizer que o “espírito” daqueles personagens que conviveram com Oswald de Andrade permanece nas sutilezas e entrelinhas do filme. Basta lançar um olhar mais atento para que sejam percebidas tais nuanças.

Oswald, por sua vez, é representado simultaneamente por Ítala Nandi e Flávio Galvão, na grande sacada de JPA, que afirma que “quem procurar o Oswald no filme não acha, porque não tem um, tem dois. Uma mulher e um homem, gerados pelo mesmo personagem. Curtem as mesmas mulheres, as mesmas camas e uma intimidade insólita”. Lalá (Regina Duarte), Dorotéia (Cristina Aché), Branca Clara (Dina Sfat) e Rosa Lituana (Dora Pellegrino) são as mulheres com quem os dois Oswalds dividem a cama e as idéias. Idéias que não paravam de fervilhar na cabeça do escritor de Memórias Sentimentais de João Miramar (1924) e Serafim Ponte Grande (1933), que foi um verdadeiro mutante e cuja tônica da obra permanece presente no filme.

Dedicado a Glauber Rocha, o filme premiado no Festival de Cinema de Brasília em 1981, esteve distante de ser uma unanimidade na época de seu lançamento. Críticas negativas suscitaram uma reação do diretor que publicou o na edição de 06 de março de 1982 da Folha de São Paulo, o texto “O Matriarcado Antropofágico” (leia). Provavelmente ainda hoje, com seu recente lançamento em DVD, não seja o filme uma unanimidade. Isso, porém, quer dizer pouco, já que seu caráter polêmico concorre para que não seja esta uma obra em vão.

A edição em DVD traz como bônus o curta Cinema Novo (1967) e nos extras “O Tempo e a Glória” (1981, 9 min.), um passeio lírico no bairro da Glória, Rio de Janeiro, por Pedro Nava, com apresentação e direção de Joaquim pedro de Andrade; “O Cinema Novo revisto por Carlos Diegues, Domingos de Oliveira e Nelson Pereira dos Santos” (2007, 20 min.); “Marília gabriela entrevista Joaquim Pedro e Cristina Aché” (1981, 8 min.); “Susana de Moraes fala sobre O Homem do Pau-Brasil” (2007, 11 min.). No encarte desta edição seguem os textos “Manifesto Antropofágico”, de Oswald de Andrade; Texto de Joaquim Pedro sobre O Homem do Pau-Brasil; “O Homem do Pau-Brasil na Cidade dele”, de Alexandre Eulálio e “Censura na Abertura”, de Leonor Silva Pinto.

Leia edição da Revista Remate de Males sobre Oswald de Andrade (clique)

O Homem do Pau-Brasil
(Brasil, 1981)
Produção: Filmes do Serro Ltda.; Lynxfilm S.A.; Embrafilme – Empresa Brasileira de Filmes S.A
Produção executiva: César Mêmolo Júnior
Roteiro: Joaquim Pedro de Andrade
Co-roteirista: Alexandre Eulálio
Direção: Joaquim Pedro de Andrade
Elenco: Ítala Nandi, Flávio Galvão, Dina Sfat, Cristina Ache, Dora Pellegrino, Regina Duarte, Juliana carneiro da Cunha Paulo Hesse, Etty Frazer, Carlos Gregório, Grande Otello, Othon Bastos, Paulo José, Riva Nimitz, Miriam Muniz, Susana de Moraes, Marcos fayad, Nélson Dantas, Wilson Grey, Patrício Bisso e outros.

fonte: http://blogquemteviuquemteve.blogspot.com/2008/09/o-homem-do-pau-brasil-1981.html

Manifesto Antropófago


Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.

Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz.

Tupi, or not tupi that is the question.

Contra todas as catequeses. E contra a mãe dos Gracos.

Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.

Estamos fatigados de todos os maridos católicos suspeitosos postos em drama. Freud acabou com o enigma mulher e com outros sustos da psicologia impressa.

O que atropelava a verdade era a roupa, o impermeável entre o mundo interior e o mundo exterior. A reação contra o homem vestido. O cinema americano informará.

Filhos do sol, mãe dos viventes. Encontrados e amados ferozmente, com toda a hipocrisia da saudade, pelos imigrados, pelos traficados e pelos touristes. No país da cobra grande.

Foi porque nunca tivemos gramáticas, nem coleções de velhos vegetais. E nunca soubemos o que era urbano, suburbano, fronteiriço e continental. Preguiçosos no mapa-múndi do Brasil.

Uma consciência participante, uma rítmica religiosa.

Contra todos os importadores de consciência enlatada. A existência palpável da vida. E a mentalidade pré-lógica para o Sr. Lévy-Bruhl estudar.

Queremos a Revolução Caraiba. Maior que a Revolução Francesa. A unificação de todas as revoltas eficazes na direção do homem. Sem n6s a Europa não teria sequer a sua pobre declaração dos direitos do homem.

A idade de ouro anunciada pela América. A idade de ouro. E todas as girls.

Filiação. O contato com o Brasil Caraíba. Ori Villegaignon print terre. Montaig-ne. O homem natural. Rousseau. Da Revolução Francesa ao Romantismo, à Revolução Bolchevista, à Revolução Surrealista e ao bárbaro tecnizado de Keyserling. Caminhamos..

Nunca fomos catequizados. Vivemos através de um direito sonâmbulo. Fizemos Cristo nascer na Bahia. Ou em Belém do Pará.

Mas nunca admitimos o nascimento da lógica entre nós.

Contra o Padre Vieira. Autor do nosso primeiro empréstimo, para ganhar comissão. O rei-analfabeto dissera-lhe : ponha isso no papel mas sem muita lábia. Fez-se o empréstimo. Gravou-se o açúcar brasileiro. Vieira deixou o dinheiro em Portugal e nos trouxe a lábia.

O espírito recusa-se a conceber o espírito sem o corpo. O antropomorfismo. Necessidade da vacina antropofágica. Para o equilíbrio contra as religiões de meridiano. E as inquisições exteriores.

Só podemos atender ao mundo orecular.

Tínhamos a justiça codificação da vingança. A ciência codificação da Magia. Antropofagia. A transformação permanente do Tabu em totem.

Contra o mundo reversível e as idéias objetivadas. Cadaverizadas. O stop do pensamento que é dinâmico. O indivíduo vitima do sistema. Fonte das injustiças clássicas. Das injustiças românticas. E o esquecimento das conquistas interiores.

Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros.

O instinto Caraíba.

Morte e vida das hipóteses. Da equação eu parte do Cosmos ao axioma Cosmos parte do eu. Subsistência. Conhecimento. Antropofagia.

Contra as elites vegetais. Em comunicação com o solo.

Nunca fomos catequizados. Fizemos foi Carnaval. O índio vestido de senador do Império. Fingindo de Pitt. Ou figurando nas óperas de Alencar cheio de bons sentimentos portugueses.

Já tínhamos o comunismo. Já tínhamos a língua surrealista. A idade de ouro.

Catiti Catiti

Imara Notiá

Notiá Imara

Ipeju*

A magia e a vida. Tínhamos a relação e a distribuição dos bens físicos, dos bens morais, dos bens dignários. E sabíamos transpor o mistério e a morte com o auxílio de algumas formas gramaticais.

Perguntei a um homem o que era o Direito. Ele me respondeu que era a garantia do exercício da possibilidade. Esse homem chamava-se Galli Mathias. Comia.

Só não há determinismo onde há mistério. Mas que temos nós com isso?

Contra as histórias do homem que começam no Cabo Finisterra. O mundo não datado. Não rubricado. Sem Napoleão. Sem César.

A fixação do progresso por meio de catálogos e aparelhos de televisão. Só a maquinaria. E os transfusores de sangue.

Contra as sublimações antagônicas. Trazidas nas caravelas.

Contra a verdade dos povos missionários, definida pela sagacidade de um antropófago, o Visconde de Cairu: – É mentira muitas vezes repetida.

Mas não foram cruzados que vieram. Foram fugitivos de uma civilização que estamos comendo, porque somos fortes e vingativos como o Jabuti.

Se Deus é a consciênda do Universo Incriado, Guaraci é a mãe dos viventes. Jaci é a mãe dos vegetais.

Não tivemos especulação. Mas tínhamos adivinhação. Tínhamos Política que é a ciência da distribuição. E um sistema social-planetário.

As migrações. A fuga dos estados tediosos. Contra as escleroses urbanas. Contra os Conservatórios e o tédio especulativo.

De William James e Voronoff. A transfiguração do Tabu em totem. Antropofagia.

O pater famílias e a criação da Moral da Cegonha: Ignorância real das coisas+ fala de imaginação + sentimento de autoridade ante a prole curiosa.

É preciso partir de um profundo ateísmo para se chegar à idéia de Deus. Mas a caraíba não precisava. Porque tinha Guaraci.

O objetivo criado reage com os Anjos da Queda. Depois Moisés divaga. Que temos nós com isso?

Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade.

Contra o índio de tocheiro. O índio filho de Maria, afilhado de Catarina de Médicis e genro de D. Antônio de Mariz.

A alegria é a prova dos nove.

No matriarcado de Pindorama.

Contra a Memória fonte do costume. A experiência pessoal renovada.

Somos concretistas. As idéias tomam conta, reagem, queimam gente nas praças públicas. Suprimarnos as idéias e as outras paralisias. Pelos roteiros. Acreditar nos sinais, acreditar nos instrumentos e nas estrelas.

Contra Goethe, a mãe dos Gracos, e a Corte de D. João VI.

A alegria é a prova dos nove.

A luta entre o que se chamaria Incriado e a Criatura – ilustrada pela contradição permanente do homem e o seu Tabu. O amor cotidiano e o modusvivendi capitalista. Antropofagia. Absorção do inimigo sacro. Para transformá-lo em totem. A humana aventura. A terrena finalidade. Porém, só as puras elites conseguiram realizar a antropofagia carnal, que traz em si o mais alto sentido da vida e evita todos os males identificados por Freud, males catequistas. O que se dá não é uma sublimação do instinto sexual. É a escala termométrica do instinto antropofágico. De carnal, ele se torna eletivo e cria a amizade. Afetivo, o amor. Especulativo, a ciência. Desvia-se e transfere-se. Chegamos ao aviltamento. A baixa antropofagia aglomerada nos pecados de catecismo – a inveja, a usura, a calúnia, o assassinato. Peste dos chamados povos cultos e cristianizados, é contra ela que estamos agindo. Antropófagos.

Contra Anchieta cantando as onze mil virgens do céu, na terra de Iracema, – o patriarca João Ramalho fundador de São Paulo.

A nossa independência ainda não foi proclamada. Frape típica de D. João VI: – Meu filho, põe essa coroa na tua cabeça, antes que algum aventureiro o faça! Expulsamos a dinastia. É preciso expulsar o espírito bragantino, as ordenações e o rapé de Maria da Fonte.

Contra a realidade social, vestida e opressora, cadastrada por Freud – a realidade sem complexos, sem loucura, sem prostituições e sem penitenciárias do matriarcado de Pindorama.

OSWALD DE ANDRADE Em Piratininga Ano 374 da Deglutição do Bispo Sardinha." (Revista de Antropofagia, Ano 1, No. 1, maio de 1928.)

* "Lua Nova, ó Lua Nova, assopra em Fulano lembranças de mim", in O Selvagem, de Couto Magalhães